sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Lápide. ®

Vermelho é a cor que melhor traduz o que eu sinto agora
E se tivesse que associar alguma outra sensação
Seria ela auditiva e diria que é a missa de Réquiem
De Mozart ou a minha própria
Dentro da escuridão de uma boite isso não faz diferença
E se continuo a passear pelas minhas sensações
E se continuo a ouvir musicas
É pra lhes dar a responsabilidade de continuar me expressando
Porque eu mesmo já na consigo
Ou não quero, não posso
Não desejo...
Fazer isso seria encontrar aquele quem eu mais temo
Gostaria de vê-lo morto
Contudo, se assim fosse, teria de ler em uma lápide qualquer
“Aqui jaz eu” ®

Evangelho. ®

Minha vontade passa
Meu desejo aos poucos morre
Tua sentença agora é lei
O caminho que fazes virou guia
Pra quem anda per os bosques à noite
Eu corri ate a fonte (mágica?) e não vi ninguém.
Mas sei que alguma ternura esteve refletida nessas águas.
E não há muito... ®

Cruzado II

Deixei muitos corpos per o chão, vi muitos olhares de temor e outros tantos de paz.

Cruzado. ®

Ás vezes viajo (para dentro de mim) em busca de alguns demônios.
Quando os encontro eu os mato
Isso quando um dos dois não foge, o que acontece com freqüência.
Ainda que dentro de um inferno astral, o repouso é necessário.
Em tempos descanso em cidades.
Mas não saio delas sem revirar os armários.
Há muitos esqueletos para destruir.
Muitos fantasmas para exorcizar.
Muitas pás de areia para jogar em cima.
Há duvidas e um saldo devedor
Em tempos atravesso campos abertos
E vou em direção a minha guerra particular
Onde somos todos escravos
Servos do mesmo senhor
Enganados pela mesma prostituta
Bêbados no mesmo bar
Desfrutamos da mesma desventura. ®

Sonho II ®

Sonhei que tu buscavas justiça até ser perseguida por um palhaço homicida. ®

A fonte mágica. ®

Meus amigos se foram.
O amigo deles ficou por aqui
Quem busca a fonte mágica?
E porque? ®

Vigilia. ®

As cordas soaram fortes quando nosso dia de cristal surgiu
E sempre soarão forte enquanto o dia for assim.
E entre todas as coisas que meus olhos despertos vêem
O incerto me fascina...

Quantos destinos pra escolher, tantos pra jogar ao mar.
Não temo as ondas e os barcos, o vento é por mim.
Um vigilante solitário em cima de um farol
Seria apenas mais um tolo...

Se não guardasse os segredos do sol.

A luz abandonou o azul do dia, me resta tua lembrança. ®

Sonho I ®

Sonhei que pintavas meu nome, com batom, em uma parede de vidro. (aivil). ®

Juliana. ®

Acalma teu espírito
E por favor, carregue a 9mm com pente cheio.
É tua amiga, a única depois que me deixares.
Ela vai te guiar assim que a chamares
E se te perderes, não demonstre receio.

E firme os olhos...
Dirija rumo á rodovia, saia da cidade.
Corra, se for preciso, chore se for do teu agrado.
Mas não finja, tampouco se engane com o passado.
E se quiser companhia, prefira a saudade.

E converse com ela...
Escute o que ela tem a te dizer
Perceba a verdade que a dor pela ausência traz em si.
E sorria para ela quando ela vier a ti.
E não tente se esconder, já não há pra onde correr.

E mesmo que tivesse...
Tu não irias queres fugir de tão agradável encontro ®

Piedade. ®

Ande pelas ruas com um grande saco vermelho na costa
E distribua piedade, sem olhar a quem.
Sem olhar o bem também
Traga roupas dignas para a miséria que te recebe no paço
Olha para tua própria, se for apropriado.

Senta no banco azul, que por ser azul, agora desbota.
E assim como a madeira do teu assento
Todos estes que te cercam desbotam
Perdem o juízo e se deixam levar
Ate serem, absolutamente, nada!

Que horas são? O adiantado da noite me cansa
Cada quarto de hora é um bordel de angustias
Desespero, dor, culpa, magoa e vingança.
Cada tragada é o que é por não poder ser pior
E não se esqueça...

Que o filho do homem veio ao mundo á serviço. ®

Siga o sol. ®

Enquanto sua força explode em tons cobre-avermelhado
Tal como um rei caído ou um anjo majestoso.
Faz calor, mas devemos seguir em frente.
Sem duvidar de que cada gota de suor
É nosso louvor de gratidão

Há um som que ecoa vigoroso
Correndo entre as árvores de copas altas
E outras nem tanto...
Destruindo a ordem, derrubando folhas, frutos e galhos.
Meus olhos não acompanham a luz
E meus ouvidos não compreendem o estrondo sonoro

Mas ainda consegui ver esses dois irmãos
Avançarem, sem compaixão, rumo as cidades.

O baque surdo de energia pulsando e demolindo
Pondo á baixo tudo que é falso e concreto ®

Isabel. ®

Eu atravessei todos os corredores que encontrei
E por muito pouco escapei de me perder
Durante horas corri sem me questionar
Se deveria fechar as janelas
Mesmo quando não estava chovendo

Isabel subiu as escadas... Eu vi...
Usava um par de brincos cor-de-pérola
E tinha um sorriso aberto
Mas seus olhos estavam cansados e ansiosos
Mesmo quando não estava chovendo

Agora sinto que o ar mudou
Sinto minha boca secar, meu pensamento fugir...
Talvez ele siga Isabel, talvez lá seja melhor...
Do alto, que é de onde ela está, não a vejo.
Mesmo quando não está chovendo


Ela tocou meu rosto, me tirou o sono invertido.
Ficamos sós dentro do vagão e ela me trouxe o silêncio...
Então começou a cantar...E tudo derretia ao seu redor
As cores desmanchavam e meu corpo adormecia
Eu já não percebia a chuva...

Desembarcamos na praia quando já era noite
Minha vontade e meus desejos escorriam pelas pernas
E se misturavam com a areia que as ondas insistiam em levar
Isabel me absorveu e se consumiu em fogo
E se chovia, já não me importava...

Porque era ela
E me sentia em paz
Ao amanhecer. ®

Na praia () ®

Na praia, à noite, ouvi um som.
Que me fazia ouvir coisas novas
Sobre novos lugares e pessoas
Novas tragédias e platéias
Era uma nova língua
Absurda e abstrata
Mas forte e aguda como espada
E depois de anos
Após ter visto as tais novas terras
E novas idéias
Que foram anunciadas
Na praia, à noite, pra mim.
Aindo me faz bem
Ouvir essa profecia
Ainda me faz bem
Ouvir as mesmas promessas de amor. ®

Teu lado sem luz. ®

Quantos carros passam
Pelos teus olhos indiferentes
Sem que te perceba?
Sentada num banco de praça comum
Como pessoa comum que observa
Mas não se dá conta
Que está só
Deve ser mais bonito
Ao cair da tarde
Se for fim de tarde
Porque a chuva te tirou o tempo

Flutua sobre o mar de razões
Mas te escondes sob a nuvem do delírio
Teu lado sem luz é como abrigo
Pra ti, em ti contra tuas próprias tormentas.
E ilusões...
E sensações que nem de muito longe
Conseguem exprimir todo tédio e vazio
Desse deserto.
É mais fácil vê-los passar
E não pensar em nada.

No caminho pra casa o silêncio se faz amigo
E te diz coisas interessantes de amigos
Que amigos devem saber
E se lembrar
Quando for hora de julgar
Ou ser julgado
Sob os dias de paz. ®

Piano tales. ®

Doce deslizar sobre teclas
Eu inquieto sobre as teclas
Vagas idéias sobre as teclas
Mudas emoções sobre teclas

Gritos e desabafos
Todos juntos em uma clave de dó
O piano solitário só encontra eco
No vazio do teu corpo

Doce deslizar sobre teclas
Eu inquieto sobre as teclas
Vagas idéias sobre as teclas
Mudas emoções sobre teclas

No conforto do tilintar
Do chimbal amigo
Tocamos jazz à noite inteira
Só uma velha de canção

Doce deslizar sobre teclas
Eu febril sobre as teclas
Suor sobre as teclas
E uma certeza

A de quem amanhece vencido.
De quem amanhece por baixo
Pra ser covarde mais um dia. ®

O baralho secreto. ®

Minha Rainha de copas saiu pra comprar cigarros
Enquanto eu, que sou Rei, me ponho a compor e compor.
Crio por não saber fazer outra coisa
Trago á luz melodias de medo e dor

Muitos valetes me visitam
E me dizem coisas de outros tempos
Quando andava por aqui um Ás
Que me contava segredos e lamentos

Todas as estrelas caíram sobre nós
Então vi que seria equivocado
Cortar o baralho pra sermos descartados

Todos fomos e sempre seremos
Enquanto a banca for suja e vestir branco
Vamos fechar os olhos e haveremos
De julgar quem por si julga santo

Eu te vi atravessar o pátio com calma
Ainda temos palácios pra abrigar desejos
De pessoas que perderam a alma
Sozinhas, perdidas e cheias de anseios.

Todas as estrelas caíram sobre nós
Então vi que seria enganado
Pelas cartas de um baralho passado

Preto ou vermelho, tanto faz.
A cor do erro é pálida
Descobri isso há tempos atrás. ®

Sarah. ®

Flores estiveram por aqui
Revoaram sobre minha cabeça
Eram muitas pra contar
Mas todas tinham teu nome

Sarah, como é bom te ouvir mentir.
Em uma pista qualquer
Dançando um som qualquer
Entre essas pessoas vazias

Mesmo sob a mira de um canhão de luz
Eu vejo teus cabelos cacheados
Quanto barulho por nada, só promessas.
De que pela manhã estaremos felizes
De que amanhã seremos amados.

Sarah, como é bom te ouvir mentir
Em uma pista qualquer
Dançando um som qualquer
Entre essas pessoas vazias

Teu rosto é lindo, mas esquece de sorrir.
Nós sempre tivemos (muito) medo de cair
Então dançamos pra fugir
Com a certeza de que nunca iremos dormir

Sarah, como é bom te ouvir mentir.
Em uma pista qualquer
Dançando um som qualquer
Entre essas pessoas vazias.®

Circux. ®

Queimei a porta
Pra ver meu circo pegar fogo
E não podia sair
Sem me sufocar

Com a fumaça maldita
De todas as alegrias
Que eu incendiei
Pra ver meu circo pegar fogo
E não podia sair
Sem te machucar

Vi três luas subirem aos céus
O mágico virou anjo
E minhas lágrimas, cinzas.

Sinto muito calor
Mas só escuto tua tosse teimosa
De quem se arrepende
Mas só escuto tua batida teimosa
De um coração que se recusa a morrer

De cada grito, tiro uma bola de neve.
Uma estrela, um navio e um anel.
E antes que meu sangue congele...

Vi três luas subirem aos céus
O mágico virou bêbado
E minhas lagrimas, moedas num chapéu. ®

Dragão. ®

Era noite e ouvi um dragão voar
Trazia o tempo em suas asas
Ele olhou e viu que te fez chorar
Quando passou perto da tua janela

E teu espelho embaçou
Porque nele, não há muito...
Um velho maldito passou
E te trouxe lembranças

Tu não aceitas, te enfurece
E por vingança, meu corpo estremece
Era noite e ouvi um dragão voar
E levou (para longe) teus gritos de dor. ®

Liberdade ®

É clichê, mas infelizmente é verdade:
Tudo é relativo.
De que tipo ou idéia de liberdade estamos falando?
Alguem já parou pra se perguntar o que é liberdade?
Ums dirão: "é isso" outros dirão :"é aquilo"
Mas quem tem o parâmetro pra julgar essas opniões?
Todos estarão sempre certos e errados ao mesmo tempo.
A questão, eu acredito, é o quanto os teus atos são limitados pelo sistema (sociedade) e o quanto o senso-comun, as regras de convivência e principalmente os valores influenciam na tua maneira de pensar.
E quando digo pensar, quero falar refletir
Quando nós pensamos em com seria um relacionamento amoroso idela, nunca nos perguntamos de onde vem a idéia de como seria um relacionamento amoroso ideal.
Em suma: Nós vivemos vários tipos de relacionamentos e montamos nosso conceito em cima do empirismo maravilhoso do sofrer, ou montamos tudo em cima de uma base que já nos foi dada, ou ainda pior,nós compramos?
Não trouxe respostas, quem teve paciência pra ler até aqui já percebeu.
Mas pra que respostas??
Acreditem, nós nem sabemos as perguntas...
E se soubessemos, dentro da colossal aliênação de todo ser-humano (em maior ou menor grau, mas todos têm!) nós não entederiamos.
Se querem um conselho, tem um que nos aproxima da idéia de liberdade:
Não se limite pelo sistema, se limite dentro dele.
Resumindo:Aprenda a jogar com as regras do jogo!
Obrigado. ®

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Sobre estar apaixonada.®

Eu não sei
E se soube um dia, já esqueci.
Não posso lhe dizer como é estar apaixonada...
Não posso lhe dizer, por exemplo, que as horas se arrastam
E que se eu serei feliz ao encontrar quem me apaixona
Eu serei ainda mais, apenas com a mais vaga esperança desse encontro
Não posso dizer também que uma garotinha que sorri para seu pai
Na saida da escola, no meio de outras crianças soridentes
Me faz sentir plena, mesmo com todo o barulho do trânsito.
Se um dia eu soube, eu deveria saber que nem todo os risos irônicos
e todas as desconfianças conseguiam me abalar
E estando apaixonada, tendo na minha lembrança mais terna a tua imagem
Eu deveria saber que no alto da montanha do caos eu me manteria serena.
Porque meus olhos estariam cheios de ti, e quando eu olhasse o céu, esperaria a chuva.
Para ver, na primeira poça d'água no caminho, teu rosto refletido nos meus olhos cheios de ti.
O vento sopra no alto do prédio e eu me absorvo
Porque todos em baixo estão gritando e sofrendo com o cotidiano
Mas eu só escuto o segredo que esses ventos imperiosos trazem
Teu nome...®

Mr.time. ®

O tempo é um cobrador implacável, ela disse, mas penso que mesmo ele pode ser gentil com algumas pessoas, todo mundo tem (ou pensa ter) um motivo ou critério para sê-lo, gostaria de saber qual é o dele.
Em todo caso, não se deve ter esperança de que ele não nos levará algo...
E são os mais variados tipos de pagamentos, ele leva de um a beleza, leva de outro a fé, do terceiro ele leva a força... e assim ele vai correndo todos os espaços e todas as éras, cobrando, cobrando, cobrando...
Quando nós sentimos um alívio, que pode ser a alegria de não ter mais o peso do rancor de um amor mal-resolvido, ou a tranquilidade de ter solucionado aquele problema que estava estressando à mais de dois meses, não se engane, eu disse á ela, ele não nos fez um favor, apenas cumpriu seu papel, levou a dor para junto dele, no infinito, de onde ele vem, para onde ele vai.
De um modo muito particular, eu disse à ela, o tempo por ser abstrato, se assemelha ao conceito de "Deus".
Talvez ele seja Deus! ela disse, isso te assusta?
Não, não... tanto um como o outro vão fazer comigo o que quiserem, sem que eu possa reclamar.
Ele também pode ser visto como um professor, afinal, da garota fútil, ele leva a maciez da pele, do julgador, ele leva a certeza, do boêmio, ele leva a saúde (que discurso árcade!, pensei)Quando estes se virem sozinhos, perceberam que mesmo eles não estão á salvo... (agora um arcadismo com um certo teor de romantismo)
O que fazer? ela perguntou.
Nada, só podemos esperar por ele, e rezar pra que ele simpatize com a nosso sorriso.
Ele leva também quem amamos, disse ela em tom melacólico.
Não leva, quem leva é a "prima feia" dele, a morte...além do mais, mesmo que amassemos as pessoas com todo o amor, elas nunca nos pertenceriam, não perdemos o que não temos.
Ele nos leva tudo, mas deixa sempre uma coisa boa, disse eu, limpando as lentes do óculos.
O que? ela perguntou, já estacionando o carro em frente à boite.
A saudade...minha voz parecia ecoar esta resposta, ela apenas me olhou e sorriu. ®

No começo... ®

São 4:30 da madrugada, ainda falta muito até sair daqui, talvez eu devesse me distrair um pouco, todas essas pessoas pulando estão me aborrecendo.
Foi uma boa ideia fazer a festa aqui, o porto é perto do centro comercial, ninguem vai chamar a policia pra interromper a festa, além do mais, o vento da baía me faz bem. estou quase sem cigarros, é melhor sair pra comprar antes que algum amigo me peça o carro "emprestado".
O som fica bem melhor quando nós nos afastamos dele, causa uma estranha nostalgia, parece que estamos saindo de um inferno doce, que mais parece uma bomba emocional prestes a explodir.
Do jeito que esses clubber exageram, explodiria uma onda de amor incontrolável...
Tem um posto mais adiante, que sorte, estou cansada, não quero mais dirigir. o balconista é amavél comigo, parece entender minha situação, é jovem, aparenta ter ums 20 anos, deveria estar na festa se divertindo com os outros.
Eu também sou jovem, mas todo esse hendonismo já me envelheceu algums anos...
Comprei cigarros e uma garrafa de água gelada, agora ela me parece muito melhor que qualquer vodka ou whisk, acho que vou ouvir um pouco de faith no more, imagino que o jovem balconista não vai se importar, afinal, o som do meu carro não é tão potente quanto o do luccas.
Por falar em luccas, tenho que lembrar de avisa-lo pra não execeder mais, ele vai voltar dirigindo, e ainda vai deixar a Júlia e os irmãos alencar em casa.
Vou voltar, não posso me afastar muito tempo de lá, a responsabilidade é minha, eu sou a produtora, e duvido que a victória segure a situação por muito tempo, ela já está longe desse planeta desde às 1:00 pm.
Voltei, tudo como antes, todos pulam sem parar, quando amanhecer, voltaram a realidade com a sensação de mais uma batalha vencida, algums batalham contra seus limites, outros contra seus medos e carências... mas no fim, todo mundo acaba perdendo, por isso sempre voltam no próximo fim de semana, querendo uma revanche... que com certeza vai acabar em outra derrota.
Está amanhecendo, o sol é bonito visto daqui, sempre tenho a impressão de que ele nasce só pra me mandar ir dormir, tudo bem, estou com sono mesmo, vou pra casa, só preciso achar meus óculos escuros... ®

Urbes est Chaos. ®

De manhã cedo meu rosto parece mais sincero do que no resto do dia, as expressões no espelho logo que eu acordo são as que melhor exibem todo meu tédio, mas tudo bem, amanhã é sabado, vou poder descansar um pouco, por enquanto eu tenho que me preocupar em chegar cedo na produtora, evitar o engarrafamento, escrever o artigo pra publicar na revista, fazer externas com um grupo de atores iniciantes pra um comercial de pasta de dente, passar na livraria pra saber quando vai chegar o meu livro, ir pra faculdade e terminar mais uma parte de meu t.c.c.
e tudo isso em 24 horas...
Bom, milagres ás vezes acontecem...
Parece que o engarrafamento eu não vou conseguir evitar, até onde eu consigo enxergar, está tudo parado, e eu presa no meu carro, é engraçado, as pessoas comprão carros para chegar mais rapido, ter mais conforto, economizar tempo, e isso é tudo que me faz falta agora, vou demorar pra chegar, daqui há alguns anos eu desenvolvo cláustrofoboia por ficar presa dentro do carro e do transito por mais de 2 horas, e sem dúvida, confiando no planejamento viário da prefeitura, eu desperdiço meu tempo. fazer o que? melindres típicos das grandes cidades, me permito até um trocadilho infame, não é uma "teoria do chaos", é uma "ironia do chaos".
Após duas horas, atravesso a porta da produtora, cumprimento todos como de costume, as mesmas pessoas no elevador, que sistemáticamente repetem o mesmo discurso-de-fim-de-semana, ir pro happy hour, amanhã vão ao parque com os filhos, á noite comeram pizza e depois assistirão um filme. assim como a tinta de um muro que desgata com as chuvas, o cotidiano perde a cor com o tempo, e mesmo eu com a minha vidinha "descolada", já começo a ver o cor-de-rosa do meu cotidiano desbotar.
A velha mesa do meu escritório, que eu divido com toda a equipe de criação, pelo ao menos, somos unidos e amigos, até seria possivél ficar em paz aqui, se não fosse por um chefe que acha que eu sou uma máquina de ter idéias e decisões e os telefonemas de cobranças e clientes mas-educados. a única paz possivél por aqui é a "pax romana".
As externas estão complicadas, esses jovens são inexpressivos, o barulho do maldito trânsito atrapalha as minha queridas linhas de áudio, e pra piorar o quadro de ira diabólica que eu me encontro, vai chover. vou marcar pra terminar outro dia, eu vendo idéias, não faço mágicas.
Uma noticia boa: meu livro chegou, "from whom the bell tolls?" ou "por quem os sinos tocam?" de Ernest Hemingway, interessante como a pergunta do título.
Anoiteceu, que bom, está quase tudo acabado, só preciso terminar uma pesquisa e entregar para a revisão de um professor que está tão afim de beber uma dose de coltrane tanto quanto eu.
Ele pareceu gostar do que leu, me liberou pra ir embora.
Na verdade ele me condenou á ir embora...
Porque novamente eu fico presa por duas horas ouvindo buzinas, gritos, vendedores de doce, o som dos violões dos barzinhos, á cada 15 minutos também escuto helicópteros voando baixo, isso sem contar com as 5 milhões de luzes das mais diversas cores piscando, acendendo e apagando, luzes dos carros, das placas das lojas e restaurantes.
Mas ao longe, existe um som e uma luz que me acalman e me absorvem, talvez pra manter minha sanidade, é a luz do farol da praia, bem longe de mim, mas sempre me guiando, e o som da "jornada ao centro da terra", trabalho brilhante de Rick Wakeman.
Já que não há nada pra fazer nas proximas duas horas, vou começar a ler meu livro. A luz do farol iluminará as páginas. ®

Saudade. ®

É uma palavra bonita, não tem equivalentes em outras línguas, encerra bem a ideia de um sentimento muito abstrato, mas ao fim de qualquer reflexão responsavél, é apenas uma palavra.
E deve-se ter cuidado com ela, quando ela deixa de expressar "lembrar com carinho do passado" e passa a significar "lamentar a covardia e prender-se á culpa", se torna um conceito extremamente prejudicial.
Em certos casos, é melhor não lembrar. o intervalo curto de tempo que nós nos acostumamos a chamar de "vida" sempre obedece ao padrão da repetição infinita.Resumindo, haveram muitos "inicios" e muitos "fims", se tiver que ater-se a algum deles,não ate-se, prefira o "durante".
Porque quando não se entende bem um fim, é difícil entender o começo que é seguinte, e vice-e-versa... não torne sua existência em um ciclo vicioso.
Lembre carinhosamente do tempo passado, mas deixe que esse mesmo tempo desbote as cores das suas lembranças, afinal, tudo vai se repetir, não sofra duas vezes as mesmas dores e nem se embriague com momentos felizes, que certamente, num futuro não muito distante, perderão o sentido. ®

posted by Sophie Orleans @ 2:53 PM 0 comments

Conto policial non-stop prt1 ®

Que diferença isso faz? não vou me incomodar com o que não pode me culpar, lentamente vou atravessar a porta de vidro embaçado, vou sentar-me junto ao balcão e beber uma dose de whisky... e que se dane o resto!
Ela me fita os olhos, parece confusa, tenho a impressão que está com frio (mas seu corpo não treme) talvez ela não se lembre de que está num bar, qual será a surpresa dela em ver que já passam das 11:00 ?
Algo chama minha atenção, olho para a porta e vejo que lá fora está deserto, qual não foi a minha surpresa em ver que agora são 2:00? passei tanto tempo assim distraido com uma garota que arranha vigorosamente a mesa? não imaginava que a carência era tanta...
Esquecer da minha própria vida por um belo par de lábios que esqueceram de tremer...
3:00 da madrugada, estamos só eu e ela, o dono do bar tira um cochilo discreto na cadeira, o som da televisão (algum filme antigo do charles bronson) e o vidro embaçado pelo frio.
Tento descobrir se esse mesmo frio embaçou os olhos dela, ou se são os meus que já não se importam com a imagem estática de uma garota que sentia dor, e que por um motivo que eu ignoro, esqueceu-se de tremer.®

posted by Sophie Orleans @ 2:49 PM 0 comments

Impassivo ®

Quem ousa olhar em seus olhos?
Quem ousa lutar contra ele?
Estamos sós na rua, na saida de alguma boite, saindo de um inferninho qualquer...
Não importa onde estamos, nem porque estamos, de qualquer forma estamos em campo de batalha. Ele veste um armadura de prata, eu visto meu casaco amigo nas horas de chuva e frio.
Ele empunha uma espada de ouro, eu só carrego uma garrafa de whisky quase vazia.
Agora, ele caminha na minha direção...
então, eu ouso olhar em seus olhos, não vejo nada, só percebo algumas cicatrizes e alguns anos de saudades.
Mas ele não irá ver os meus, eu os fecho antes que ele possa busca-los.
Ele se aproxima, eu ouso lutar contra ele, e já que estou de olhos fechados, luto ás cegas.
Afinal, que chance eu tenho contra um cavaleiro, se eu só disponho de uma garrafa e um casaco?
Só me resta lutar com bravura...
O vento agora é bem mais forte, o frio que ele traz corta mais que a espada do meu oponente.
A chuva agora é bem mais pesada, o peso das gotas verga meus ombros...
Que batalha memorável!pena não ter ninguem pra assistir, sem testemunhas pra presenciar meu esforço, ninguem pra escrever um livro, pra fazer uma música, qualquer coisa...
Eu já estou cansado, mas não vou desistir, vou morrer lutando!
Um belo golpe e eu desabo meu corpo sobre um poça d'água... fui derrotado.
Só me restou o tempo de ver meu amigo cavaleiro fincar, um pouco acima da minha cabeça, uma bandeira. eu esperava uma cruz ou um éptáfio cheio de falsidade, mas a bandeira é bonita e tem um nome escrito, é nome de mulher, já sei porque perdi a batalha...®

Perdão.®

Há pouco desci dos céus e vim para cá, queria descanso...
Achei esse lugar interessante, é um dos poucos sobre a terra que ainda respeitam o silêncio.
E se eles soubessem o quão maravilhoso é o silêncio...
A dor, por exemplo, é silenciosa, o sofrimento é que causa todo o barulho.
Assim como o amor, que também é silencioso.... apesar de todo o escândalo que a paixão costuma provocar, nublando toda a ternura de uma observação tranquila sobre a pessoa amada.Ainda mais se observassem a pessoa enquanto ela está dormindo, em silêncio.
Reflexões precisas e sinceras precisam de quietude, é muito dificil ouvir a própria voz quando não estamos mentindo, seja para o mundo ou para nós mesmos.
Estão todos gritando, correndo, fugindo, fingindo, mentindo, se escondendo e chorando...
Eu vi 66.666 mil soldados covardes correrem da ira original.
E aqueles miseráveis,que não pediram perdão. eram mais sinceros que a maioria de vocês...
Eu tenho lutado por todo o sempre, e não posso desistir... mas como eu gostaria de poder.
Talvez por isso eu tenha escolhido esse lugar para descansar, aqui eu não ouviria suas vozes.
Só preciso dividir esse lugar com as lembranças e algumas lágrimas.
Agora preciso voltar, lutar por você e por eles...
Um dia, quem sabe, em vez de descansar, eu mando todos vocês pra debaixo dessas cruzes de mámore.
Calados, vocês não cometeriam tantos erros...®

Fuga ®

Um meio pelo qual eu possa renunciar, é um meio abençoado que me permite voltar, sem arrependimentos ou covardias.Isso me faz sentir bem, hoje eu acordei ainda sentindo (se é que é possivél) a mesma ausência de ontem.
Mas isso já não me incomoda,entendi que eu nunca vou estar satisfeito, é da minha indole, do meu Padrão, eu fui desenhado por uma força perfeitamente coerente pra sempre estar descontente.E sigo em frente.
Eu tenho sido bem cruel com uma garota frágil e sensível, tenho sido indulgente e piedoso com quem me persegue, tenho sido displicente com quem me ama e leniente com quem eu levo pra cama.E sigo em frente...
Nesses dias de paz, minhas palavras foram doentias e cheias de febre, editaram planos pro futuro num compacto de "melhores momentos", isso pra não perder mais meu tempo.Mas quem se importa com que eu digo?alguém ainda me dá ouvidos?
A força das palavras está no senso-comun e no múto entendimento, fora deste casamento, tudo é som e matéria-prima pra arte.Eu falo impropérios ao vento, componho meu quadros e me recomponho quando ela sai do quarto.Á cada segundo eu renuncio aos teus afagos, a cada segundo eu renuncio ao teu torpor, a cada segundo eu renuncio a minha própria natureza.
E como eu ja disse antes, Renunciar é um meio abençoado... ®

A fábrica de anjo. ®

Todo dia a fábrica produz muitos anjos.E nunca acaba a materia prima...Não há clientes, ela tem colaboradores...E muitos funcionarios, trabalhando sem parar, dia após dia...Talvez ela seja a multinacional mais sólida no mercado.Com postos de trabalho no mundo inteiro...Não importa a cultura ou religião...Ela trabalha á todo vapor...Todo dia produzindo novos e inocentes anjinhos A fábrica é uma clinica de aborto.Mas doi menos se omitirmos esse fato. ®